Quartine 92-99
92.
In balìa d’acqua e vento dell’ombrello
disfatto mi rimasero le stecche.
Un grigio ragno a gambe all’aria e la tela
appesa a un ramo: nel cielo saettante.
93.
Di una muta effimera argilla, fragile
vaso, qualsiasi cosa – non importa
cosa – casualmente incrinata sposa
la pura incandescenza del momento.
94.
E l’avanzare continuo in un gioco
d’ombre quiete in qualche passo compiuto
e non compiuto nel barbaglio oscuro.
Un po’ senza sapere e un po’ senza capire.
95.
Il perché e il percome di quei ristagni
di quei calcinacci (sintagmi sparsi
sul fondo dell’anima) chi li indovina?
Delle parole è l’eco impredicibile.
96.
E viene il vento, viene non invano
dall’asciutta acquasantiera del deserto.
Rosso boccio di rosa la parola
riaffiora (e boccheggia) tra le sterpaglie.
97.
In ogni angolo buio nidifica
la parola; in ogni specchio singhiozza.
Lacrima persa in un borboglìo d’acqua,
ritrosa rondine che non sa dire.
98.
Le parole sono rimaste sole
nel cuore del poeta: non arrivano
alle labbra, alla punta della lingua.
Le parole sono rimaste sole.
99.
Come nascosta nel cuore un’antica
tela scolorita il calare del sole.
Ogni ora odora ancora di dolore.
Rossa brunisce l’orizzonte una rosa.
Leopoldo Lonati, Discorso senza un alito di vento, Bellinzona, Edizioni Casagrande, 2022.
92.
À mercê d’água e vento, do guarda-chuva
desfeito me restaram as varetas.
Uma aranha cinzenta, de pernas para o ar, e a teia
pendurada num galho — no céu faiscante.
93.
De uma silenciosa e efêmera argila, frágil
vaso, qualquer coisa — não importa
o quê —, casualmente trincada, desposa
a pura incandescência do momento.
94.
E o avançar contínuo num jogo
de sombras quietas, em algum passo dado
e não dado, no fulgor escuro.
Um pouco sem saber e um pouco sem entender.
95.
O porquê e o como daqueles charcos,
daqueles cacos de reboco (sintagmas
espalhados no fundo da alma) — quem os adivinha?
Indizível é o eco das palavras.
96.
E vem o vento, vem não vem em vão,
da ressequida pia benta do deserto.
Rubro botão de rosa, a palavra
reaflora (e ofega) entre o mato seco.
97.
Em cada canto escuro se aninha
a palavra; em cada espelho, soluça.
Lágrima perdida num gorgolejo d’água,
arisca andorinha que não sabe dizer.
98.
As palavras ficaram sós
no coração do poeta: não chegam
aos lábios, à ponta da língua.
As palavras ficaram sós.
99.
Como, escondida no coração, uma antiga
tela desbotada: o cair do sol.
Cada hora ainda cheira a dor.
Vermelha, uma rosa tisna o horizonte.
é professor, escritor e tradutor literário. Com formação nas áreas de Relações Internacionais e Letras, já publicou contos e poemas em diversas antologias nacionais, explorando temas como identidade, memória, desigualdade social e mitologias. Participou de coletâneas dedicadas ao terror psicológico, à ficção especulativa e à poesia contemporânea. Tem experiência em tradução de textos do inglês, espanhol e italiano para o português, priorizando a recriação estética e semântica. Recentemente venceu o Prêmio Lila Ripoll de Poesia. Atualmente trabalha na edição de seu primeiro livro solo, enquanto seu segundo projeto concorre na categoria Fantasia ao prêmio Livros do Futuro, promovido pelo TikTok com apoio de importantes editoras do setor.
