Diagramas circulares de arte combinatória (2022-2024)

A pesquisa sobre mecanismos interativos operados no plano tridimensional e em tempo real para a combinação de palavras previamente definidas, conduziu-me à produção analógica de diagramas circulares. Este mecanismo interativo gerador de combinações, apresenta num só plano todas as possibilidades combinatórias, através de um dispositivo construído com círculos concêntricos e divisões regulares da circunferência. A quantidade das hipóteses combinatórias é condicionada pelo número de divisões vezes o número de círculos. No âmbito da investigação, obtiveram-se breves textos poéticos, abertos a interpretações e associações livres, assim como experiências com imagens/máscaras.
Com o apoio técnico de Terhi Marttila e Celeste Pedro, proponho a versão digital interativa (ainda não viável em smartphones) de alguns exemplares de arte combinatória.
A resolução prática para este exercício surgiu através da obra de Ramon Llull (1232-1315), um racionalista místico também alquimista, que, à luz da ciência da época, compõe o livro Ars Magna, que emprega diagramas geométricos de combinações através da sobreposição concêntrica, em redor de um eixo, de aros de diâmetros diversos, contendo cada qual um conjunto limitado de palavras ou letras que, de acordo com as suas múltiplas possibilidades de combinação, permitem gerar proposições comprovativas dos princípios (na ótica da moral cristã medieval, e do cruzamento ecuménico) que regiam toda a existência.
Este método consistia numa tentativa de estruturar matematicamente o pensamento. Leibniz, pai da lógica simbólica, que descreveu o sistema binário baseado no um e zero, terá sido influenciado pelo trabalho das hipóteses combinatórias de Llull, precursoras da computação. Um algoritmo nunca permitirá o infinito, mas poderá gerar um número tão elevado de variáveis que se torna quase impossível conceber um número. Na música, Bach, Mozart e Haydn usaram algoritmos para ordenação de notas selecionadas aleatoriamente.
Outra referência para a investigação foi o livro lançado em 1960, Cent mille milliards de poèmes, do escritor Raymond Queneau que viria a ser figura chave do coletivo Oulipo, e do matemático François Le Lionnais, uma coletânea de sonetos distribuídos por cada uma das dez páginas do livro, com quatorze linhas por página, duas quadras e dois tercetos. Todas as frases/linhas são separadas por cortes no papel, o que permite um número absurdamente grande de combinações de poemas.
é designer gráfico e Mestre em Ilustração e Animação pela Escola Superior de Design do IPCA. Desenvolve obra experimental em processos de gravura e projetos de auto-edição centrados na relação entre o texto poético e o desenho e investiga processos combinatórios de poesia experimental.
