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Santa Eulália

 

João Diogo Zagalo (conto e música)
Catarina Coelho (ilustração)

 

Catarina Coelho, Tinta Sumi e guache em papel (33 x 26 cm), 2020

 

 

Ao fim de muitos anos, e inúmeras tentativas, que resultaram sempre infrutíferas, The Lone Ranger conseguiu prender o seu velho rival, o temível Tiny Tom, no dia 5 de fevereiro, após um duelo épico, envolvendo uma intensa luta corpo a corpo.

Tiny Tom permanece desde aí alojado no Estabelecimento Prisional de Santa Eulália.

No dia 10 de novembro, The Lone Ranger encontrava-se na reserva de caça, a acabar de esfolar uma gazela (a gazela viveu sempre livre e feliz na reserva de caça e foi morta com toda a dignidade, numa luta justa), quando recebeu uma carta remetida por Tiny Tom:

“Caro The Lone Ranger: Espero que te encontres bem de saúde. Escrevo-te esta carta sentado no meu velho colchão de penas, que está infestado de pulgas. As dimensões da minha cela (cela 03 do Piso 1 da Ala A) são de 3,35 m X 3,80 m X 3 m (comprimento, largura e altura) e partilho-a com mais dois reclusos.

Não tenho privacidade – a casa de banho, composta por sanita e lavatório, está inserida na cela, sem isolamento. Eu sou coagido a permanecer com os meus companheiros de infortúnio neste cubículo de dimensões reduzidas, com um mobiliário composto apenas pelos beliches, uma cadeira e um armário. Diariamente oiço ruído proveniente dos meus companheiros de cela (problemas pessoais, gritos, angústias existenciais).

As paredes e janelas da cela são invadidas por percevejos. A janela gradeada é poiso diário de pombos e pardais, que ali arrulham entre si.
A comida é péssima – de manhã, uns pãezinhos duros acompanhados só com manteiga. Ao almoço e jantar – sopa sem azeite, frango cru ou mal confeccionado, fruta sem qualidade. A bebida é composta apenas por água da torneira, repleta de químicos e calcário.

As actividades lúdicas e culturais são escassas: frequento o programa de Promoção do desenvolvimento Moral e Ético. Estou inscrito na lista de praticantes de futebol de 11. Integro o grupo de apoio – Desafio Jovem. Frequento o acompanhamento espiritual e religioso – Igreja Católica.
Estou triste e desanimado”.

The Lone Ranger pousou a carta, pensativo. Depois disse a Tonto:
“Vamos lá, que isto assim não pode ser”.

No dia 11 de novembro, The Lone Ranger (em cima do seu cavalo “Silver”) e Tonto (em cima do seu cavalo “Scout”) invadem o Estabelecimento Prisional de Santa Eulália.

The Lone Ranger dita um requerimento a Tonto, dirigido ao Tribunal de Execução de Penas.
“Efectuamos este resgate do recluso Tiny Tom porque não concordamos com o tratamento desumano infligido a este cidadão. A área em que o recluso vegeta, sob cárcere, viola o estipulado nos artigos 3.º e 8.º do Regulamento Interno dos Estabelecimentos Prisionais. Representa stress, depressão e tortura humana…”

The Lone Ranger pára, por instantes, de ditar a carta a Tonto, enquanto, com a espingarda na mão esquerda, rebenta (sem sofrimento para a vítima), com os miolos de um guarda prisional. Tonto, por seu turno, pára, por instantes, de escrever a carta, enquanto escalpela, com firmeza, engenho e sem sofrimento, um recluso que se encontrava no pátio.

Tiny Tom não ouve a algazarra porque se encontra a cantar na missa, actividade englobada no âmbito do programa de Promoção do desenvolvimento Moral e Ético.

“Que dia soalheiro!”, comenta The Lone Ranger.
“Soalheiro” escreve-se com “o” ou com “u”? Questiona Tonto, continuando a escrever a carta com a mão esquerda, enquanto escalpela com a sua mão direita, e com toda a mestria, mais umas quantas pessoas.

Nasceu em Lisboa, cidade onde reside. É jurista de profissão. Nas horas vagas, de vez em quando, dedica-se à escrita e à música. Editou um livro de contos ("Histórias Amorais, para crianças e animais") e prepara-se para lançar um EP baseado na personagem “The Lone Ranger”.

Vive em Boston, onde é professora no Massachusetts College of Art and Design. Tem obra gráfica em várias coleções, incluindo no Museu de Belas Artes de Boston, e em 2020 foi bolseira do Conselho Cultural de Boston. Recentemente expôs no Danforth Museum, MA, e na Washington Art Association, CT.

Número #01
1. Resistência-renúncia-reflexo. Movimento inverso
2. Michigan, acaso Michigan e a ficcionalização do coma
3. Coordenadas: abertura, imprevisibilidade, ilegibilidade, possibilidade, silêncio
4. Azul
5. Souvenirs from the city
6. Que raio de barco atravessa que raio de mar a caminho de que raio de porto?
7. Engolido pelo plástico
8. 6 nuages-trouvés
9. Obiana
10. Rio
11. Santa Eulália
12. 10 estudos sobre Clepsydra
13. Gravitatem miniatur ad extremum nominis (2019)
14. Traduzir a si mesmo. Mil perguntas ao entardecer
15. [Mas, e apesar de não gostar, prefiro ser visto…]
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