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Michigan, acaso Michigan e a ficcionalização do coma

 

Antonio Segade (2018), Michigan, acaso Michigan, Vigo: Xerais, p. 14

 

O coma como tensão entre realidade e ficção

Na sua canção “Coma”, os Guns N’ Roses apresentam um sujeito que luta contra a morte e que faz a contínua pergunta de se alguma vez voltará ao mundo real. Assim, o sujeito descreve as sensações que o perseguem enquanto entra num mundo que se afasta da racionalidade e da consciência: sente que está a desconectar-se, que o seu corpo se dilui, que na sua mente se começa a criar um espaço diferente daquele em que o seu corpo se encontra:

Suspended deep in a sea of black
I’ve got the light at the end, I’ve got the bones on the mast
Well, I’ve gone sailing
I’ve gone sailing
(1991: 1 min 40 seg)

Ao mesmo tempo, descobrimos também as interferências que a realidade externa produz dentro deste mundo em que o sujeito está a mergulhar e ouvimos as vozes dos que tentam que abandone o estado de coma e que desejam que o seu corpo comece a reagir:

Okay, let’s get this guy in the program please, we’re losing him (start an IV Please)
Come on, his airways someone’s got to protect his airways I want two
Where’s the defibrillator?
Two IV’s over here please, that’s two more now, we’re losing him (let’s go) (help me)
Okay, respond, we’re losing this guy (help me)
(1991: 2 min 30 seg)

 

 

O sujeito apresenta-se, então, entre dois mundos diferentes: o onírico, produto das novas sensações que o estado do coma produz, e o real, marcado pelos esforços médicos para que o seu corpo volte à normalidade. O estado de coma caracteriza-se por unir e salientar algumas dicotomias existentes na natureza humana, como a vida e a morte, a racionalidade e o sonho ou a realidade e a ficção. E, talvez por isso, esse sono profundo seja tão fascinante para o mundo das artes e da criação.

Esta transição do consciente ao inconsciente, a ideia de um longo e profundo sono do qual talvez não consigamos acordar é um tópico frequentemente tratado no campo da arte. Encontramo-lo, por exemplo, em dois dos contos tradicionais europeus mais lidos e versionados: o da Bela Adormecida e o da Branca de Neve. Estes dois relatos populares, ambos recolhidos pelos Irmãos Grimm (embora o conto da Bela Adormecida já tivesse uma versão do século XVII de Giambattista Basile), contam a história de duas mulheres que caem num estado de sono profundo. Embora não seja possível conhecer os sonhos ou sensações que as protagonistas têm durante o seu estado de inconsciência, constatamos como o coma é capaz de se converter numa linha que marca a fronteira entre a dura realidade (antes do sono) e o mundo dos sonhos, que começa com a salvação do príncipe. Parece então que o sono é uma transição entre uma realidade desagradável e um mundo onírico, com o claro triunfo do segundo. Esta nova vida em que as protagonistas acordam está mais próxima dos seus verdadeiros desejos, mostra uma nova forma de viver que parece superar os conflitos e as injustiças da realidade de onde procediam.

Assim, o estado de coma é uma forma de alcançar um outro mundo ao qual só se pode chegar através do sono. Ainda neste sentido, encontramos a história de Paul Amadeus Dienach no princípio do século XX. Trata-se de um professor alemão que adoeceu e caiu num sono profundo do qual só acordou um ano depois. Foi então que decidiu escrever os seus diários contando tudo o que lhe aconteceu durante o seu estado de adormecimento: esteve consciente em todos os momentos, só que num corpo diferente (que pertencia a uma pessoa chamada Andrew Northman) e numa época futura (o ano 3906 d. C.). Os diários foram traduzidos e difundidos por um dos seus alunos após a sua morte, um reconhecido maçom que converteu estas crônicas em profecias sobre o futuro. O livro começou a comercializar-se no século XXI com o título de Crónicas do futuro e a história de Paul Dienach produziu curiosidade entre todas as pessoas que quiseram lê-lo como um relato escrito desde a posteridade. Desta forma, podemos ver como a insconsciência cria uma narrativa que produz uma tensão com o racionalmente entendível.

Ao falarmos de sonhos e inconsciência é inevitável mencionar a corrente vanguardista do surrealismo e as suas explorações do onírico que, como já é bem conhecido, se encontram profundamente influenciadas por Freud e pela psicanálise. Embora não haja menções específicas ao estado de coma entre os surrealistas, se pensarmos que muitas das suas obras são criadas num momento onde a imaginação e a vida diária se fundem, onde o sonho mostra uma outra realidade mais profunda e inacessível, poderíamos falar de uma espécie de estado semelhante ao coma, mas que, neste caso, é procurado propositadamente pelos/as autores/as.  São as visões fora dos parâmetros da lógica, o questionamento de tudo o que está ao nosso redor e, especialmente, os elementos oníricos, as únicas formas de aceder a uma realidade muito mais completa do que aquela que podemos experimentar através da racionalidade.  Assim, no surrealismo, à semelhança do que ocorre no estado de coma, não criamos outro mundo, mas multiplicamos o conhecimento acerca da nossa vida diária. Por isso, já no Manifesto do Surrealismo publicado em 1924, André Breton clamava “Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar (como se fosse possível enganar-se mais ainda)” (Breton 1924).

Mas os surrealistas não foram os últimos interessados em falar sobre o mundo do inconsciente. Continuamos a ver como, durante todo o século XX, se criam mais ficções que pensam sobre a capacidade de aceder a novos mundos e perspetivas desde o sono. Assim acontece, por exemplo, na série de televisão canadiana dos anos 90, The Odyssey (1992), onde um rapaz entra em coma ao cair duma árvore, sendo que em cada um dos episódios vive uma aventura diferente num mundo onde ninguém tem mais de 16 anos.

 

 

Ou também no conhecido programa de televisão britânico de ficção-científica, Life on mars (2006), onde um inspetor da polícia sofre um acidente de carro e, enquanto está em coma, aparece no mesmo lugar trinta e três anos antes.

 

 

Todos estes exemplos mostram que, para a ficção, este estado de inconsciência tem um alto potencial criador, pois é capaz de romper com os limites espaciais e temporais aos quais nos subjuga a racionalidade, sem abandonar por completo o mundo real. Em numerosas ocasiões serve para acordarmos numa realidade semelhante à nossa forma ideal de vida e, em outros casos, simplesmente nos oferece a possibilidade duma outra forma de ser, de transitar por corpos, espaços e tempos diferentes do nosso. Em qualquer caso, esta ambiguidade entre a vida e a morte, entre o material e o imaginado, produz uma reflexão sobre nós próprios e sobre a nossa forma de existir.

 

Michigan, acaso Michigan e a representação intermedial do coma

O criador galego Antón Reixa entrou em coma a 27 de outubro de 2016, quando o seu carro se desviou da autoestrada em Castela, e permaneceu nesse estado inconsciente durante 18 dias. Foi assim, por acaso, que Reixa conheceu Michigan pela primeira vez. Esta experiência traumática é explorada numa das suas últimas publicações, Michigan, acaso Michigan (2018), onde o autor reflete sobre os acasos e sobre o limite entre a vida e a morte, a realidade e a ficção.

A narração do acontecimento é constituída por seis partes, intituladas respetivamente “Condución”, “Intro-dución”, “In-dución”, “Re-condución” e “Re-dución”. Porém, a escrita desta experiência não parece ser suficiente para representar todas as sensações produzidas durante o coma e, por isso, o autor serve-se de diferentes meios. Como o próprio tinha já explicado anteriormente, a intermedialidade é utilizada como uma forma de completar o fracasso da palavra (2016: 14 min 20 seg). Os distintos meios complementam-se e ajudam, assim, a construir uma narração a nível global. Em Michigan, acaso Michigan, a palavra aparece no livro e no complementar jornal Michigan daily. O uso da imagem faz-se com a escultura que o artista galego Francisco Leiro desenhou para esta história e também com as ilustrações e o vídeo criados por Antonio Segade. O som que aparece junto ao vídeo foi criado por Anxo Graña e a voz que recita é do próprio Antón Reixa.

 

 

Todos estes meios uniram-se numa exposição de 18 dias, com curadoria de Xosé Luis García Canido, celebrada pela primeira vez a 27 de outubro de 2018 no centro DIDAC de Santiago de Compostela e que se transladou depois para o Círculo de Bellas Artes de Madrid. Nesse espaço, encontramos no centro da sala a escultura de um homem sobre uma cama de hospital. Sobre ela, projeta-se o vídeo e, no fundo, ouvimos a voz de Antón Reixa a ler o relato do sucedido.

 

Francisco Leiro (2018), MICHIGAN/Acaso Michigan. Crónica de 18 días en coma, DIDAC, Santiago de Compostela. Disponível em: <http://didac.gal/didac/es/exposiciones/anton-reixa>

 

O recetor procede, desta forma, a uma imersão total na narração do coma, já que este se produz através de diferentes sentidos. A confusão entre o mundo real e o da ficção é amplificada cada vez que uma das imagens do vídeo se projeta sobre a bata de hospital branca que a escultura leva vestida. Aquelas figuras distorcidas que vemos procedem do mundo externo ou são produto da imaginação do doente? É o doente que está a mostrar a visão do seu mundo interno enquanto está em coma? Esteve Antón Reixa realmente no Michigan?

O relato de Michigan, acaso Michigan assegura que sim: “Diante de min, unha rúa central dalgún lugar de Michigan. Era luns. Diso estou seguro” (2018: 51). Porém, em seguida, distinguimos que se trata de uma visão muito pessoal da cidade norteamericana: “Era Michigan: había Chevrolets, Starbucks, pero tamén postos de polbeiros. Paisaxe obscenamente confusa” (2018: 51). Assim, temos um Michigam galeguizado, onde a visão da cidade americana se completa com imagens típicas da Galiza, como os locais de venda de polvo, e que claramente passa pelo imaginário do autor, pois vemos como se mencionam elementos que já existiam em algumas das suas obras anteriores: protocolos contra acidentes (Historia do Rock and Rol 1984), louvores aos canalizadores (Historia do Rock and Rol, 1984) ou a preocupação com os conflitos no Médio Oriente (Algo raro pasa raro, 2015).

Cada uma das afirmações lógicas que se fazem na narração diluem-se ou, no mínimo, põem em causa o seu estado da verdade. Parece que é uma realidade branda, que escapa das mãos e, por isso, é completamente acertada a referência que Antonio Segade faz dos famosos relógios derretidos de Dalí:

 

Antonio Segade (2018), Michigan, acaso Michigan, Vigo: Xerais, p. 24

 

As pegadas do surrealismo são óbvias em todo o texto, além das imagens plásticas. Estamos num mundo de imaginação, onde os limites da racionalidade se superam. Michigan converte-se, de repente, em Nova Iorque e, depois, no País Basco: “Chego a unha caseta. Sei que é un refuxio de trekking no País Vasco. Non se me pregunte por que. Pero sei como chego” (2018: 70). Por isso, a própria voz que narra o texto começa a duvidar das suas afirmações: “Comeza outra vez o debate comigo mesmo. Que se estou en Michigan/ que se estou en NYC/ que se os taxis son amarelos” (2018: 70).

Quando achamos que estamos irresolutamente perdidos num mundo de ficção ao qual tivemos acesso por causa do coma e que já não iremos voltar à realidade, encontramos algumas referências ao mundo em que se encontra fisicamente o corpo: primeiro, a voz narrativa percebe a dor física do seu corpo, comparando-a com uma “árbore, pero con problemas traumatolóxicos” (2018: 51); em segundo, sabe que está em pijama, referindo “sei que estou en pixama. Quero sentir no peto que teño o móbil” (2018: 70); por último, sente vontade de beber e de ir à casa de banho: “Non sei de que falar co puto toureiro. Desaparece. Teño problemas para moverme. Quero mexar. Mexo por min. Que gusto. Que gusto ter sede e mexar. Canto máis mexo, máis sede teño” (2018: 75). Introduzem-se também algumas críticas à vida quotidiana, o que nos indica que não saímos por completo do mundo real:

É como cando en TV emiten imaxes de destrución de Alepo (Siria) tomadas con dron. Son imaxes apacibles e suaves de ruínas urbanas. Non transmiten miseria nin conmiseración. Non motivan solidariedade. Imaxes Asperger. Non se ve xente. Só caos e destrución inmobiliaria. Son como as imaxes do Berlín en caos de 1945 no filme de Rossellini, pero coa elegancia do dron. Pero estou nalgún lugar de Michigan, non en Siria. A guerra de Siria é un enigma. Non se entende quen son os bos e quen os malos. Os enigmas sempre agachan algo malo. Do contrario, non os chamariamos enigmas, senón misterios (2018: 52).

 

Antonio Segade (2018), Michigan, acaso Michigan, Vigo: Xerais, p. 53

 

Por conseguinte, constatamos como a narração do coma de Antón Reixa coloca o recetor novamente na linha entre realidade e ficção e como permite o acesso a experiências que nunca teriam lugar dentro da racionalidade. Esta união de imaginação e mundo quotidiano é levada ao extremo com a criação do jornal fictício The Michigan Daily, distribuído entre os assistentes da exposição no DIDAC. Nele, aparecem notícias dos 18 dias de 2016 em que Antón Reixa esteve em coma e são comparadas com notícias dos 18 dias de 2018 em que a exposição de arte foi exibida. Finalmente, inclui-se em cada dia uma reflexão do autor, fictícia e com contornos surrealistas que, de alguma forma, serve para neutralizar o mundo dos media e para nos recordar da tensão entre realidade e ficção implícita na natureza humana.

 

Antón Reixa (2018), MICHIGAN/Acaso Michigan. Crónica de 18 días en coma, DIDAC, Santiago de Compostela. Disponível em: <http://didac.gal/didac/es/exposiciones/anton-reixa>

 

BIBLIOGRAFIA

Breton, André, Manifestos do surrealismo, Lisboa, Letra Livre, 2016.

CBC Television, The Odyssey, Canada, CBC Television, 1992.

Dienach, Paul, Chronicles from the future: the amazing story of Paul Amadeu Dienach, Atenas, This Way Out Productions, 2016.

García Canido, Xosé Luis, Michigan, acaso Michigan. Crónica de 18 días en coma [exposição], Santiago de Compostela, DIDAC, 2018.

Guns and Roses, “Coma”, Use your illusion, Nova Iorque, Geffen Records, 1991.

Kudos Film& Television, Life on Mars, Reino Unido, BBC, 2006.

Reixa, Antón, Ciclo palabra e imagen, Avilés, Centro Niemeyer de Asturias, 2016.

____, Michigan, acaso Michigan, Vigo, Xerais, 2018.

____, Michigan, acaso Michigan [vídeo].

É doutoranda contratada na Universidade de Vigo com uma bolsa do Ministério de Educação Espanhol e está a realizar uma tese sobre a poesia do quotidiano na literatura galega e portuguesa contemporâneas. Entre as suas áreas de investigação estão a poesia galega e portuguesa atuais, os trabalhos intermediais e os estudos comparatistas.

Número #01
1. Resistência-renúncia-reflexo. Movimento inverso
2. Michigan, acaso Michigan e a ficcionalização do coma
3. Coordenadas: abertura, imprevisibilidade, ilegibilidade, possibilidade, silêncio
4. Azul
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