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Coordenadas: abertura, imprevisibilidade, ilegibilidade, possibilidade, silêncio

 

ensaio experimental (ou poema-ensaio, como também praticado por aqueles/as a quem se dedica este pequeno artefacto textual)
 

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A mesa está pronta para todos. Esta é a grande messe. Cada qual pode servir-se à vontade: intervir é possuir. As coisas que um faz pertencem a todos. Todos se comprometem nelas, usando-as e intervindo, tornando-as mais suas, indefinidamente. Acabou-se com a pontificante mensagem. O formulário, fechado numa organização definitiva e composta univocamente, desapareceu. Existe um desejo inconcebível de abrir todas as portas. Os nossos olhos escutam o som dos nossos passos. À ordem lógica contrapõe-se a desordem da imaginação. A euritmia opõe-se à simetria. A «forma aberta» barroca substitui o centralismo clássico. O finito da comunicação é abafado pelo infinito plurivalente das formas. E é por motivo desta ambiguidade ou imprevisibilidade que se verifica um acréscimo de informação, a qual é directamente proporcional à própria entropia (A. Moles), exactamente porque a informação «é função da improbabilidade da mensagem recebida». O jogo aumenta, sobe sempre. Cresce. As suas consequências são, por assim dizer, imprevisíveis.” (António Aragão, “Intervenção e movimento”, 1965)

 

 

 

“Deste modo, a actividade criadora do homem, quer científica, quer estética, ao produzir factos novos está constantemente a provocar alterações e reajustes na estrutura dos conhecimentos e das relações entre os homens, originando um dinamismo específico que caracteriza essa mesma sociedade. Um agregado humano onde não ocorrem novidades pode considerar-se como estruturalmente morto, pois os indivíduos que o compõem são incapazes de alterar a sua própria condição e, nada tendo a comunicar, o seu conteúdo informacional é zero. A novidade, pela momentânea desorganização das estruturas e subsequentes movimentos de reagrupamento e reorganização, é por si só uma fonte eficaz de constante aumento do teor informacional de um conjunto de factos ou de uma sociedade. Daí que o conceito de entropia, como medida de desorganização de um sistema, seja básico para a aferição do poder criador de uma sociedade e que essa ideia abstracta tenha uma premência directa sobre a estrutura dessa sociedade.” (E. M. de Melo e Castro, “A actividade criadora e o método estrutural”, 1967)

 

 

 

 

Despojamento por redução ao essencial, as artes, a maioria das artes contemporâneas, tornam-se sobretudo o «manifesto» de mínimo, que magnificam e no qual se definem e apoiam a sua consistência. Este aspecto, profundamente crítico e intelectual, coloca a criação no plano de reflexão e da reflexão que experimenta com a própria matéria que pensa. Toda a alteração veloz, que outros consideram por «consumo» de formas, temos que o reconhecer, não acontece por consumo nenhum, pois as formas usuais não só não tiveram tempo nem intensidade para se gastarem, nem efectivamente se gastaram; toda a alteração me parece um movimento dialéctico definindo a amplitude crescente, a «abertura» cada vez maior, a multiplicidade das estâncias essencialmente válidas, ainda que opostas, os mundos diferenciados uns dos outros e cada vez mais múltiplos na progressão crescente, que não significa a não existência dos universos formais negados, mas a coexistência da multiplicidade desses universos. Não se esgotaram os mundos formais por consumo nas formas ainda e sempre actualizáveis. A actividade criativa é livre na escolha e determinação própria, sobretudo mais livre ainda no momento em que integrou a reflexão, o pensamento de si mesma, a autodefinição essencialista, no programa da sua actividade.” (Salette Tavares, “Forma aberta”, finais dos anos 60)

 

 

 

 

Pensar o problema da legibilidade/ilegibilidade do texto ou da escrita literária é próprio do escritor, que constantemente se defronta com o problema da escrita que cifra e da leitura que decifra. Meditar sobre o grau de legibilidade (ou inteligibilidade) dum texto, ou ainda sobre a influência do tempo na legibilidade dum texto, ou o desgaste duma língua, que não é só igual ao desgaste das sucessivas ideologias que a utilizam mas também recriam, concretamente; meditar sobre a legibilidade é tentar avaliar até que ponto ela decorre das limitações impostas por um código que, estabelecendo a relação entre emissor e receptor, regula a sua própria legibilidade, isto é, o grau de comunicabilidade possível das mensagens e a sua decifração, que é o problema real da leitura.

E. H. Gombrich diz, por exemplo, que em arte toda a comunicação consiste em «fazer concessões» ao conhecimento do receptor. E, de facto, seria preciso poder-se decidir, dentro mesmo duma linguagem específica como a da arte, o que é literalmente legível e o que é literalmente ilegível. E sobretudo: legível para quem? Quando? Como? Porquê?

Sabemos que seja qual for a linguagem – palavra, gesto, objecto nem tudo é sempre legível, como nem tudo é sempre dizível, como nem tudo é sempre decifrável. E é justamente nessa zona de obscuridade determinada pelas limitações da expressão e da interpretação que se inscreve a ilegibilidade essencial do objecto de arte – o que nele fica por dizer, em silêncio, indizível – que é o que vai precisamente permitir inúmeras, talvez infinitas leituras criadoras.” (Ana Hatherly, A Reinvenção da Leitura, 1975)

“O que o observador pode apreender na obra deste tipo são segmentos da superfície do conhecimento postos numa correlação que destrói a sua sujeição aos símbolos apriorísticos. O trabalho despreconceituoso do observador consiste exclusivamente em apreender a existência desta correlação nova. A partir desse momento, a apreensão não pode deixar de ser estética. Os objectos autónomos não são eternos e monumentais, não têm nem essência verbal nem semântica transcendente: são apenas estímulos, efémeros exemplos de uma maneira de conhecer, signos de existência, de presença no mundo. Justamente nisso estes processos se distinguem dos poetológicos: no facto de não serem reprodução de sentido, mas sim destruição do sentido existente e produção de um sentido consciente do conhecimento de que é matéria portadora.” (Alberto Pimenta, “O silêncio dos poetas”, 1978)

É investigador júnior do Instituto de Literatura Comparada (U. Porto). É doutorado em Materialidades da Literatura (U. Coimbra) e coeditor do Arquivo Digital da PO.EX (U. Fernando Pessoa). [hackingthetext.net]

Número #01
1. Resistência-renúncia-reflexo. Movimento inverso
2. Michigan, acaso Michigan e a ficcionalização do coma
3. Coordenadas: abertura, imprevisibilidade, ilegibilidade, possibilidade, silêncio
4. Azul
5. Souvenirs from the city
6. Que raio de barco atravessa que raio de mar a caminho de que raio de porto?
7. Engolido pelo plástico
8. 6 nuages-trouvés
9. Obiana
10. Rio
11. Santa Eulália
12. 10 estudos sobre Clepsydra
13. Gravitatem miniatur ad extremum nominis (2019)
14. Traduzir a si mesmo. Mil perguntas ao entardecer
15. [Mas, e apesar de não gostar, prefiro ser visto…]
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